Texto do Dr. Aderaldo Luciano na apresentação do livro "Os Tres fios de cabelo de ouro do diabo"

...Josué estreou no cordel, na Luzeiro, com uma trama original O coronel avarento (ou O homem que a terra rejeitou) e seguiu o caminho com O mistério da pele da novilha. Antes, embrenhara-se pelo conto e pelo romance, treinou sonetos, mas foi no embate com o cordel que sentiu ter encontrado seu caminho. Segundo diz, iniciou-se tarde. O cordel, entretanto, alojou-se em seu coração desde quando ouviu, pela primeira vez, os antigos versos das histórias pioneiras jorrando da leitura ritmada de Sá Maria, sua avó.

O valente João Acaba-Mundo foi seu herói primevo, seu modelo, durante aqueles primeiros dias, posteriores à audição. Ali, o cordel escolhera mais um. Passados 50 anos, escreve sua primeira página cordelial. Movido pela ansiedade, satisfeito com a receptividade de estreia — o meio cordelístico paulistano o abraçara —, coisa que move todo iniciante, Josué partiu para a produção e publicação de suas histórias. Seu encontro com a Caravana do Cordel foi decisivo, amadureceu sua prática poética e estabilizou sua necessidade de escrever.

Agora, senhor do seu ofício, conhecedor das nuanças caprichosas dessa forma poética, foi agraciado com o Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, do Ministério da Cultura. Todos nós nos emocionamos ao vê-lo em segundo lugar, ultrapassado apenas pelo Mestre Azulão. Este folheto é o produto vencedor. Encontraremos uma letra leve e escorreita, que sabe narrar e descrever. Em suas rimas ouviremos a boa sonoridade desejada. Em sua métrica o resultado do estudo aplicado.

Com a publicação de Os três fios de cabelo de ouro do diabo, consolida-se em seu labor literário, cumprindo, assim como o filho da sorte de seu cordel, mais uma etapa de sua missão. Sabendo que o rio, com seu barqueiro mal humorado, ainda está longe de se fazer presente, acreditamos que sua inspiração nos presenteará em breve com outra história original, saída diretamente para o cordel, oferecendo-lhe o caminho da continuidade criativa. Josué sabe, com todas as certezas, que é o cordel quem escolhe e não o poeta.

Doutor em Ciência da Literatura, com tese sobre Cordel, é professor universitário, poeta, músico e responde pelo editorial da Editora Luzeiro, de São Paulo, especializada em cordel. Ministra palestras e oficinas em todo o Brasil.

 

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 O mistério de Josué por Marco Haurélio (Postagem de 2010)

"O Mistério da Pele da Novilha", de Josué Gonçalves de Araújo, lançado recentemente pela Luzeiro, é, ao mesmo tempo, um sopro renovador para a poesia dita popular e a afirmação de uma tradição que nem todos querem ou conseguem respeitar. Refiro-me ao romance, gênero nobre da Literatura de Cordel, que, hoje em dia, muitos consideram anacrônico.

Josué, não. Tanto no anterior, O coronel avarento, como neste, entrevê-se no autor o leitor. E ele não nega. Credita a sua inserção no universo do cordel à avó, que lia, para ele, o longo e empolgante romance de Minelvino Francisco Silva, João Acaba-Mundo e a Serpente Negra. Se antes do autor vem o leitor, antes do cordelista está o ficcionista. É a partir de sua obra em prosa, ainda pouco conhecida, que Josué vai construindo e consolidando sua carreira de cordelista.

Na obra de Josué, a referência à mitologia grega é também uma constante. Mas ela não é gratuita. Em O Mistério da Pele da Novilha, por sinal, ela se faz notar sutilmente, quando o autor compara o protagonista, Severino, ao desventurado Titono, amante de Éos (a Aurora), premiado com a imortalidade, mas não com a eterna juventude. No personagem principal, ainda é possível se enxergar traços da lenda cristã do judeu errante, o igualmente desventurado Ahasverus (ou Assevero), já levada para o cordel por Severino Borges, Francisco Sales Arêda e Manoel Pereira Sobrinho. Na literatura de cordel, o judeu é identificado como Samuel Belibé (de “Beli-Beth”, o sem-casa).

Josué mistura, ainda, o romance realista, com uma descrição perfeita da vida e dos costumes sertanejos, com o realismo fantástico, sem deixar de ser convincente ou descambar para a inverossimilhança.

Mais não direi para não atrapalhar o arguto leitor. Afinal, como o próprio título entrega, há um mistério a ser desvendado. E um tesouro a ser descoberto.


Marco Haurélio:
Baiano de Riacho de Santana, poeta popular, editor e folclorista. Em cordel, tem uma vintena de títulos editados. É autor, também, dos livros infantis A Lenda do Saci-Pererê e Traquinagens de João Grilo (Paulus); O Príncipe que Via defeito em Tudo (Acatu; pela Editora Nova Alexandria, lançou Lendas do Folclore Capixaba, As Babuchas de Abu Kasem (Conhecimento), A Megera Domada (recriado em cordel a partir do original de William Shakespeare) e O Conde de Monte Cristo (versão poética do romance de Alexandre Dumas. Com base numa recolha feita no sertão baiano, em 2005, organizou as antologias Contos Folclóricos Brasileiros (publicada em 2010 pela Paulus Editora), Contos e Fábulas do Nosso Folclore (Nova Alexandria) e Contos de Fadas Brasileiros. No campo da pesquisa em poesia popular, escreveu Breve História da Literatura de Cordel (Ed. Claridade), que integra a coleção Saber de Tudo.
 

 Autor: Josué Gonçalves de Araujo

Sites: http://josuearaujo.com e http://josuecordel.yolasite.com

e-mail: josuecordel@hotmail.com

Fone: (11)7421-8940

São Paulo - SP

 

*I FORUM DE CORDEL EM SÃO PAULO


O PRIMEIRO FORUM DE CORDEL SE REALIZA EM SÃO PAULO

No último dia 27 de agosto de 2011, era um sábado ensolarado em São Paulo,quando poetas, pesquisadores, professores e estudantes amantes da arte se encontraram para discutir o Movimento de Cordel em São Paulo e no restante do país.
O Fórum foi aberto com a intervenção musical de Aldy Carvalho com sua excelente musica e interpretação.
Muitas discussões foram feitas: a relação da tradição com a contemporaneidade com a presença na mesa de Francisca Batista mestranda em sociologia e pesquisadora e o Poeta Moreira de Acopiara outro debate bastante acalorado foi sobre a história e relação do cordel com a universidade. Nesse debate contamos com a presença de Aderaldo Luciano doutor em Literatura e a doutora em sociologia Jerusa Pires Ferreira.

Tivemos uma boa participação dos presentes nos debates que se inscreveram para opinarem sobre as questões em discussão.
Além do debate teórico sobre o cordel, tivemos apresentações de poetas e músicos no evento que abrilhantaram mais ainda a realização desse evento.

Parabéns ao Movimento Caravana do Cordel que vem nesses últimos anos construindo espaço para que o amante do cordel possa reconstruir uma compreensão desse gênero da Literatura Brasileira que ainda busca o seu verdadeiro reconhecimento.

*Trecho de:
Nando Poeta no Blog: http://tributoaocordel.blogspot.com/ -
segunda-feira, 29 de agosto de 2011.

 Foto (única)
Avó: Maria Francisca da Silva, (Sá Maria)
Nascida em:
Macaúbas, Bahia, em 15 de maio de 1905,
Filha de: João Pereira da Silva e Maria Francisca da Silva.
Casada com: Manoel Gonçalves de Araujo,
Nascido em: Remédios, Bahia, em 19 de fevereiro de 1891,
Filho de: José Joaquim de Oliveira e Maria Rosa da Luz. (Bisavós)
Filhos de Sá Maria: Eliza, Maria Francisca (Dodó), Antonio, José, Ana, Joaquim, Otávio e Auzelita.
Vivos somente: Ana e Otávio.

Mistérios e Proezas do Cordel

Sá Maria, minha avó - Depoimento do neto
Josué Gonçalves de Araujo, escritor cordelista da Editora Luzeiro:

Sá Maria
, assim era conhecida a minha avó Maria Francisca da Silva. Teve papel relevante na minha vida literária e provavelmente no meu destino. Foi ela quem, numa noite de lua luminosa, quando ainda não havia energia na cidadela, contou a primeira história de Cordel para nós, que embevecidos, sentados no chão do terreiro, ouvia em silêncio. Acredito que só eu tenha gravado profundamente na alma, as emoções daquele instante mágico. Garoto de apenas 6 anos de idade, não conseguiu dormir naquela noite sonhando com todo aquele cenário de gigantes e heróis valentes e um linguajar estranho – em versos. Hoje sou um escritor cordelista da tradicional Editora Luzeiro Ltda., de onde saiu a história que ela nos contou: "A história do valente João Acaba-mundo e a serpente negra" de Minelvino Francisco da Silva que, coincidentemente residia em Itabuna-BA, região onde morou a minha Avó. Todas as outras histórias contadas por ela estão lá nos livretos, alguns com páginas acidificadas ou manchadas pela ação do tempo, nas prateleiras da editora.
Vale lembrar que a minha Avó era analfabeta, mas de tanto ouvir desde criança, as histórias dos livretos de cordel, ela tinha decorado tudo na memória. Influenciada por ela ou provocado pela magia do cordel que ela recitava em versos, passei a amar os livros e me tornei um escritor de cordel. Ao ouvir a primeira história do cordel encontrei um portal par um mundo virtual, onde tudo era possível nquele cenário literário; onde poderia, ter ou ser, tudo o que eu não tinha no mundo real, da seca, da miséria, dos espinhos das lavouras em tempos de colheitas, dos sacrilégios da vida de boia-fria nas terras do Pontal do Paranapanema. Assim era a força desse gênero da literatura em versos e rimas que alfabetizou durante muito tempo o povo nordestino que ansiava pelo saber.

Dizem os cientistas da vida que:"...a natureza sempre dá um jeitinho", bem assim foi o nordestino diante das dificuldades da sobrevivência: sempre encontrou um beco, um atalho, uma trilha, um jeitinho para sobreviver, pois, de onde deveria vir o suprimento das necessidades básicas, não vinham nunca. Estou falando de escola e recursos sociais e culturais. O governo, os políticos e os coronéis negligenciavam toda espécie de projeto que objetivava amenizar os flagelos oriundos da seca no nordeste, por simples conveniência - politicalha brasileira que ainda esta ativa.

O Cordel ou os livretos conhecido por Sá Maria com o nome de: “Romanso” (romance), cumpriu o seu papel. Uma literatura em linguagem fácil, metrificada, rimada, versificada de fácil assimilação pelo povo nordestino do sertão carente dos recursos do conhecimento cultural das grandes cidades. O verdadeiro cordel tem a alma da oralidade entranhada em sua essência literária.Não se consegue ler para si próprio, em voz alta....Eu vou contar uma história, de um pavão misterioso...de José Camelo de Melo Resende, ...Para quem pensar assim, como exemplo eu vou contar, a história dum preguiçoso...de Minelvino Francisco Silva. A oralidade é uma das características desse gênero literário. Quem conta uma história, conta para alguém ouvir, ou segundo Minelvino, ... Para quem pensar assim, é sempre, de preferência para o ouvinte.

Os escritores cordelistas da geração atual, lutam pelo reconhecimento da supremacia desse gênero literário, que sempre ficou a margem da elite da literatura dita erudita, oficial, em razão do preconceito?

Sou eternamente grato a minha avó Sá Maria. Inspirado nela eu escrevi o meu primeiro romance em prosa com 187 páginas: “O Mistério da Bruxa de Areia Dourada” onde a personagem "Nhá Maria" é a grande guerreira e se torna mais forte após a sua morte. Um dia vou publicá-lo em cordel.

Ainda sobre essa guerreira:
Sá Maria ganhou do seu padrinho, uma bezerra que ainda estava na barriga da mãe. Com essa bezerra ela fez uma boiada. Os bois foram criados soltos nas caatingas do sertão sem cercas de arame farpado e perambulavam pelo terreiro da casa como se fossem cachorros ou porcos domésticos. Quando os filhos de Sá Maria se largaram no mundo - um deles seria o meu pai -  engrossando as filas dos migrantes da seca, ela vendeu a boiada e partiu para o oeste do estado de São Paulo a busca dos filhos. Comprou uma casa com um grande quintal cercado de balaustres de madeira, bem na cidadezinha de Mirante do Paranapanema. Criou galinhas, cultivou uma horta e era a melhor saboeira da cidade. Fazia o melhor sabão de sebo e soda. Vendia as suas verduras, os frangos e o sabão para os moradores e para as mulheres do bordel, na periferia da cidade. Sá Maria, minha avó sempre foi um exemplo de nordestina guerreira. Não lia com os olhos, não escrevia com as mãos, mas usou os ouvidos para assimilar aquela forma de literatura - o cordel - única fonte de cultura e conhecimento, acessível. Dessa forma se tornou a minha primeira professora de literatura popular (oral), quando eu ainda não sabia ler e nem escrever. O cordel se utilizou da minha avó para me laçar com o seu nó indesatável.

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