OS TRILHOS DO  DESTINO

Num desses sonhos que se sonha dormindo, vislumbrei a minha realidade. Aquele adolescente interiorano que sonhava partir para a Capital num vagão do Maria Fumaça, a mais moderna locomotiva da época, avançou no tempo... Sonhar é normal, salvo, quando você sonha que esta dentro de um corpo velho, num tempo futuro.

A locomotiva do tempo rodou sobre trilhos infindáveis, desde a “Maria Fumaça” até o “sistema de transporte urbano efetuado por comboios de veículos a tração elétrica”, conhecido como - o metrô. Mas foi no Maria Fumaça que eu vi aqueles olhos de gato pela primeira vez. O som melancólico das narinas da velha locomotiva soou ao longe, entrando pelo capinzal verde. Abri os olhos e os meus tímpanos foram assaltados por uma presepada barulhenta, oriunda daquela engenhoca de ferro movida à lenha: café com pão, manteiga não... A geringonça cruzou o imenso capinzal esverdeado e desceu cortando um pedaço de mata fechada, sempre num sacolejo ritmado e contínuo. Esfreguei os olhos com as mãos e respirei fundo para despertar de vez do cochilo. Tomei consciência de que aquela viagem não era o sonho, sonhado uma infinidade de vezes. Eu estava feliz, apesar de uma leve ardência no peito, conseqüência dos repuxos das minhas raízes retesadas, tentando lograr ao inevitável rompimento.
Pela janela, li na placa de entrada da estação – Laranjal Paulista. Ainda havia pela frente quase um dia de viagem. O trem rangeu sobre os trilhos da plataforma e silenciou. Um senhor de cabelos brancos, trajando farda azul, boné na cabeça, entrou no vagão e anunciou: Estação de Laranjal Paulista; senhores passageiros, este trem está quebrado, mas, já tomamos as providências necessárias. Os senhores podem visitar a cidade, pois só partiremos em duas horas.

Saí do trem com uma bolsa a tiracolo e desci a escadaria da estação, em direção a uma praça. Estava jururu por ter deixado a família, os amigos e a minha cidade para trás, o que era um contra-senso, pois havia uma agitação dentro do meu coração, uma forte expectativa de realizar os meus sonhos, trabalhar em uma grande empresa e voltar cheio da grana, trajando belas roupas. Doces pensamentos brotavam em minha mente vingativa: “Aquelas menininhas esnobes vão babar quando me virem, mas então serei eu a usar do esnobismo.”

A década de sessenta começava com uma energia veemente e explosiva. A juventude vivia em tempos de euforia com os novos ídolos e suas músicas de ritmos radicais. Os adolescentes começavam a se desgarrar das barras dos pais e se aglomeravam em rodinhas nas pracinhas públicas. Um vento rebelde, vindo do leste, rodopiava em uma aceleração cada vez mais rápida, tendendo a se transformar em um poderoso furacão, daqueles que devastam e mudam tudo de lugar, na cabeça dos jovens.

Cruzei a praça e tomei café em uma lanchonete. O que eu poderia fazer em duas horas, sozinho em uma cidade estranha? Melhor era deitar num banco da praça que ficava ao lado da escadaria da estação e esperar o tempo passar. Garotas, em grupos de duas ou três, perambulavam graciosamente pelos canteiros da praça, usando roupas extravagantes, influência da moda jovem.

Botei a bolsa no banco, recostei a cabeça e mergulhei em conjecturas, sob os parâmetros do meu mundo, o mundo de um garoto do campo que ainda não havia sentado a frente de uma televisão. A idéia que eu fazia sobre a Capital, foi formada através de fotos de revistas, ou seja, uma grande cidade maravilhosa e agitada como um formigueiro ameaçado pela sola da bota de couro de um roceiro descuidado. Ali, sobre o banco da praça, eu tinha consciência de estar vivenciando um momento especial da minha vida e, apesar da coerência da minha decisão, não podia negar que estava com medo do futuro.

Naquele momento bateu uma confusão de sentimentos na alma: Solidão, ansiedade, temor, tristeza, mas já, ali, aflorava a relevância do meu forte instinto de sobrevivência, o meu salvador; o salvador de todos os dias; por causa dele, eu sempre vencia a luta contra o sufocante tédio da existência e o pavor de envelhecer como um pobre ninguém. Olhar para as pessoas e encarar os efeitos da corrosão do tempo, essa arbitrariedade natural da existência humana, era assustador. Já se passaram tanto tempo, mas eu jamais esqueci aquele sonho, pois, esse estigma continua a me amedrontar.

 Vencido pela lassidão da viagem e embalado pelo canto melódico de uma corruíra no galho de um flamboyant, cochilei sobre o banco da praça e sonhei.

A escada rolava, movendo-se como se fosse viva. Eu não estava só, havia comigo outras pessoas caladas, paradas sobre os degraus da escada rolante, toda aquela paisagem arquitetônica futurista, incluindo as pessoas e os seus trajes, tudo era estranho. Eu mesmo não me reconhecia naquelas roupas esfarrapadas, aparência física envelhecida, barbas longas e sujas, tufos de cabelos assanhados e esbranquiçados, velho e mendigo com os olhos macambúzios enterrados no emaranhado de pelos das faces.

O velho exterior e o jovem interior, a mesma pessoa, juntos em corpo e alma, conflitantes, num tempo futuro; o futuro e o passado, juntos sem presente. Uma situação esdrúxula que estava além da minha compreensão: paisagem urbana excêntrica, escadas que se moviam levando pessoas para plataformas subterrâneas, um enxame delas com roupas bonitas, aglomerando-se em pequenas filas. O velho maltrapilho congraçava naturalmente aquele cenário, ao contrário do jovem em seu interior, que tentava entender aquela realidade no seu futuro. Um trem fantástico com vagões revestidos em metal branco prateado surgiu de um túnel subterrâneo e, em nada se assemelhava ao Maria Fumaça que eu - a alma jovem - conhecia. Em segundos, toda aquela multidão da plataforma se escondeu no interior dos vagões. Jazi em pé na plataforma, enquanto um guarda empurrava pessoas para dentro do vagão e fechava uma das portas.

Meu olhar se dirigiu para uma janela do vagão, onde dois olhos de gato me observavam insistentemente. Havia angústia e decepção naqueles olhos. A jovem colocava uma mão na boca e acenava com a outra. O desespero pareceu aumentar à medida que o trem foi se afastando. Não poderiam ser para outra pessoa aqueles acenos desesperançados, pois, eu, o mendigo, era a única pessoa restante na plataforma, se é que mendigo é considerado pessoa.

- O que aquela bela jovem poderia querer comigo, ou melhor, com aquele corpo avelhantado e mendicante? A forte sensação de frustração envolveu a minha alma, tanto que cheguei a beirar o pranto! Aqueles olhos de gato não me saíam da mente.

A plataforma já estava novamente repleta de pessoas mal-educadas, apressadas, cumprindo as regras da disputa por uma vaga nos vagões do trem sem fumaça. Dessa vez adentrei ao vagão, simplesmente adentrei, sem que alguém tocasse em mim, como se eu não existisse, enquanto as demais pessoas foram empuxadas para dentro, emboladas numa massa humana rumorosa. Conclui que mendigo é uma casta de seres invisíveis constituídos de massa etérea. Ninguém vê um mendigo, ninguém toca e ninguém olha nos seus olhos, pois ele não tem olhos. A alma de um mendigo espia o mundo real pelas frestas do corpo. Mendigo é como a pulga de um cão que, se tiver a presunção de manifestar a sua existência, morre envenenada ou esmagada entre as unhas de um ser humano. Ser velho mendigo é ser um inferno ambulante. A velhice é imposição da natureza, mas, quanto à mendicância, tenho dúvidas de que seja uma questão de livre arbítrio ou de má sorte.  

O calor no interior do vagão era insuportável, impossível se mover e respirar. Ofereceram-me uma vaga num banco de uso específico para idosos e invisíveis, mas, diante do flash de visibilidade exclusivo para a sujeição do benefício de uma lei humilhante, recusei com indignação. Eu me sentia asfixiado nas entranhas daquela pele flácida.
A vida é como um barco à deriva em águas sem horizontes. Um ancião não é diferente: tem que rir todo dia para espantar a morte, ver a si próprio sendo oxidado, avelhantado, engolindo o sapo imortal do paradoxo da vida, o espírito que rejuvenesce e evolui a cada dia dentro de si, sem a esperança de extravasar-se porque o corpo não o atende mais. É como se estivesse em estado de catalepsia com total consciência das suas faculdades intelectivas e, tomado por morto pelas pessoas ao redor, velando-o e, depois, levando-o à sepultura. Nesse estado de temor, você, amordaçado, agrilhoado, prisioneiro no interior da sua carcaça, em plena letargia, impedido de gritar, chorar e falar, resta-lhe contemplar o triste desfecho de ser enterrado vivo. Ainda assim, você continua a exigir o que não pode ter; a sonhar com o impossível. Envelhecer é se apaixonar mais e mais pelo belo intangível, tendo cativo no corpo cadavérico, um espírito sábio, auspicioso, intenso e infatigável. – Velho e sonhador... Mendigo? O que poderia ser mais cruel?

De repente a centopéia prateada entrou na boca de um túnel e mergulhou na escuridão.

- Moço... Acorde! Você vai perder o trem!

- Moço? Eu? O trem... O trem já está consertado? Meu Deus!

Agarrei a bolsa a tiracolo e parti no maior pinote pelos degraus da escadaria que me pareceu mais extensa dessa vez. Ouvi o último apito do trem e percebi os primeiros movimentos: café... com pão...manteiga...não...

Cheguei ao piso da plataforma no limite das minhas forças, quando as portas dos vagões da locomotiva já estavam fechadas. – Mas essa geringonça sempre trafegou com as portas abertas, por que agora estão fechadas? - Meus olhos procuravam uma porta aberta ou algo em que eu pudesse me agarrar, mas não havia nada para me pendurar. A última janela já se aproximava. De onde eu estava percebi dois olhos de gato em desespero olhando na minha direção; duas mãos acenavam para que eu entrasse no trem. Convencendo-se de que eu havia perdido o embarque, a garota ficou imóvel e vi lágrimas descendo pelas suas faces ao passar rente de mim. A angústia me assaltou e atirei a bolsa no piso cimentado da plataforma, vendo o Maria Fumaça se afastar cada vez mais rápido. – Quem é aquela garota? - Pensei.  Eu não a veria nunca mais e esse pensamento me desesperou: - Não! - gritei com toda a força das minhas entranhas.

- Acorde moço! Esta gritando por quê?

- O trem... A moça...

- Calma! O trem vai partir, mas ainda não deu o último apito.

O engraxate da praça que estava no outro banco, ouviu o meu grito e decidiu acordar-me. Olhei para o alto da escadaria, esfregando a mão em um olho e fiquei aliviado ao ver o trem no mesmo lugar de antes. Arranquei a toda velocidade, escadaria acima, e cheguei esbaforido ao piso da plataforma. Os passageiros já estavam dentro dos vagões e eu me acomodei num banco junto à janela, recostei a cabeça e fechei os olhos por segundos. Estremeci ao som do último apito, apito daqueles que soltam uma cauda de fumaça branca. A geringonça estremeceu e começou a se movimentar lentamente. Olhei para a plataforma e percebi que uma garota chegava correndo com uma bolsa nas costas. - Uma passageira de Laranjal Paulista que estava atrasada? Corri para os degraus da porta e quando a garota esticou a mão para me dar a bolsa, os seus olhos se cruzaram com os meus: Olhos de gato! – Exclamei mentalmente. Livre da bolsa, ela pulou para o degrau e entrou. A Maria Fumaça apitou novamente, acenando para o adeus final.

Sentamo-nos no mesmo banco, lado-a-lado. Eu suspirei com a alma aliviada.

- Oi, sou Karina! Sabe que por um instante, pensei que não conseguiria embarcar nesse trem? - Falou com voz suave sem desviar o olhar dos meus olhos.

- Muito prazer! Sou Ricardo! Olha, não estranhe o que vou lhe dizer, mas se você não tivesse embarcado, eu saltaria do trem; não a perderia dessa vez. 

- O quê? Não entendi o...

- É uma longa história, mas teremos uma vida toda para discorrer sobre o assunto. - Os olhos de gata brilhavam e não se desgrudavam dos meus. Minha mente vaticinou enquanto eu a observava: - A sobrevivência é uma viagem sem rumo definido, mas se estivermos juntos dentro do trem da minha vida, a mendicância estará do lado de fora dos trilhos do destino.

 O velho maquinista de espírito aventureiro acionou o cordel do apito mais uma vez, quando a velha locomotiva da esperança adentrou pela pradaria verde salpicada de ovelhas brancas na saída dos limites da cidade. 

- Pois é! Agora estou aqui a recordar...

- Dr. Ricardo? Dr. Ricardo?

- Sim, Jeremias!

- Perdoe interromper sua meditação, mas o helicóptero esta pronto, e o seu neto já está a bordo.

- Obrigado por lembrar-me. Ah! Jeremias?

- Pois não!

- Apresse a minha esposa.

- A Dra. Karina já foi avisada, senhor.

 

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